quinta-feira, 25 de novembro de 2010

mini conto

"Foi atingida por cadeiradas e socos ficando desacordada. Resultou em dois braços e dois dentes quebrados. A direção da escola se reunirá objetivando qualificar melhor os seus mestres".

sábado, 23 de outubro de 2010

Yo no creo, pero que las hai...

Gostava de contar a história. Repetia-a para os filhos, para os netos, para as visitas. Apesar dos oitenta anos não esquecia detalhes. A bruxa existia, sim, ela mesma a vira. O pai e a mãe também. Teria talvez uns doze anos, idade suficiente para saber que não sonhava, viu mesmo! Foi quando nasceu o menino, seria o quinto, irmãs tinha já três. Moravam em Taquari, terra da laranja. A cidade era pequena. A rua de chão batido de terra vermelha era ladeada por casas simples, de madeira, algumas um pouco melhores, outras feitas de remendos, poucas vistosas. Como em qualquer cidade pequena todos se conheciam e por isso mesmo tudo se comentava.
Quase na frente da sua casa morava uma vizinha que competia com Seu Pedro e Dona Manuela em número de filhos. Sabe como é, naquele tempo não tinha pílula, comentava Vó Virgínia. Sete meninas. Não se deveria ter sete filhos do mesmo sexo. O primeiro ou o último seria bruxo, ou bruxa como no caso das filhas da vizinha. Era a fala do povo.
O irmão teria uma semana de vida quando ao anoitecer ouviram todos um tropel, gritaria e gargalhadas vindas da rua. O barulho era anormal. Correram todos. Vó Virgínia, o pai Pedro e a mãe Manuela com o pequeno nos braços. Foram à janela olhar o que havia lá fora. Os cães latiam endemoniados, a lua cheia clareava já os telhados iluminando tudo, inclusive aquela figura de mulher montada sobre um cavalo, cabeleira arrepiada, roupas esvoaçantes, gargalhava e a galope sumiu no fim da rua.
O que teria sido aquilo? Quem seria a horrenda criatura? Um arrepio perpassou todos que viram a cena. Em choque, assustados fecharam a janela sem acreditar no que viram. Mas, a noite não foi de sossego não, porque o menino não dormiu. Chorou a noite toda, a semana toda, não quis mais comer, entrecruzou aos poucos os bracinhos e as pernas. Foi levado a uma benzedeira. Este menino está embruxado. Precisa ser batizado. Mas o padre não quis batizar não, porque primeiro tinham ido na benzedeira. Seu Pedro e Dona Manuela e mais todos ficaram atônitos, consternados, culpados até... o menino poderia morrer... por favor seu padre! Nada. E o menino definhou...definhou...finou-se sem ser batizado.
O acontecido foi comentado em todos os cantos e recantos do bairro e a sétima filha da vizinha passou a ser apontada na rua, ou seria a primeira? Isto vó Virgínia não seberia dizer.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mandalas de água

Abriu os olhos e espreguiçou-se. Acordou com o barulho dos pingos e o chiado constante de uma chuva que caía lenta, contínua. O dia anterior havia sido quente, de um sol espraiado, de um céu sem nuvens, de brigadeiro como se diz, por isto a chuva era uma surpresa. Ana Rosa bocejou, era tão cedo ainda, seis horas quando muito. Cobriu-se melhor, enroscou-se nas cobertas, aninhou-se outra vez na cama. Era esta a sensação que lhe causava a chuva lá fora, de aconchego. Sensação que a remetia para longe no tempo, para seus porões, para sua infância mais precisamente. Que ano seria aquele? 1950? 51 ou 52? Ana Rosa não teria mais que cinco anos quando a enchente chegou. Nunca tinha visto aquilo. Junto com as irmãs, menores ainda que ela, debruçava-se na janela. Se é que se pode chamar de janela um buraco quadrado que fechava-se com duas folhas de madeira. Não havia vidraças e assim ficavam com meio corpo para fora a espiar a enchente. Era tão alta aquela janela. Lá embaixo, na água suja e barrenta os barquinhos de papel flutuavam. Extasiadas, hipnotizadas por aqueles círculos concêntricos, por aquela mandala de água que cada barquinho provocava, Ana Rosa e as irmãs torciam para que a pequena embarcação chegasse à outra margem. As crianças eram as únicas que se divertiam com tudo aquilo. Para os adultos, um caos. A casa de madeira estava úmida. Saia-se da casa ou entrava-se nela com água quase nos joelhos. Sorte que a casa era alta. A noite chegara. Está igual àquela de 41! Ouvia a conversa dos grandes. Lembrou-se do pai, capa e bota e ainda assim encharcado, chegando do escuro molhado da noite e admirou-o. Seu pai não tinha medo do escuro, nem da enchente. Ana Rosa por sua vez esperava amanhecer novamente para atirar mais barquinhos de papel à água e ficar olhando aqueles círculos formarem-se e ampliarem-se até bater na margem extinguindo-se. Aquela contemplação a extasiava. Sabe-se lá aonde aquilo a conduzia. Voltava a si pelo chamado da mãe. Vem comer a banana Ana Rosa! E assim o chiado da chuva ao acordar e as mandalas de água lhe ficariam guardadas na memória para sempre junto com o sentimento de aconchego e proteção. Crianças são assim mesmo, vêem beleza até no meio da desgraça. Outro bocejo e Ana Rosa virou-se para o lado, acomodou novamente as cobertas e adormeceu. Sonhando viu casebres de madeira na beira da estrada rodeados de água da chuva. Em muitos deles haveria crianças brincando com barquinhos de papel. No sonho o aconchego misturou-se a um incômodo sentimento de culpa. Por que tinha que ser assim?

domingo, 17 de outubro de 2010

Porões

Outro dia fiz uma visita. Conheci o local de trabalho de artesãos aprendizes. Fui descendo escadas um... dois... três... degraus... mais alguns... mais pra baixo... o cheiro do barro seco, da argila molhada entrando nas minhas narinas. Respiro um ar úmido. Ao redor peças esculpidas... uma moranga, um rosto, uma concha. No fundo uma saída para um pátio com árvores antigas, folhagens e um banco de jardim. De repente não estou mais ali. O porão é outro, muito antigo. Uma casa sobre ele. Subo as escadas e reconheço a casa da vó de fora. Assim nós a chamávamos para diferenciar da nossa avó Marieta que vizinhava conosco em Porto Alegre. A casa no bom estilo italiano ficava nos arredores de Barbosa, quer dizer, município de Carlos Barbosa. Ficava no alto, encravada em terreno irregular. Na frente uma sala ocupava toda a largura. A porta principal dava para o avarandado e enfim para o jardim. O terreno continuava acidentado de modo que depois do jardim subia-se uma ladeira e chegava-se então aos trilhos do trem. Sim, o trem passava por ali, dividindo ao meio as terras do meu avô. O trem passava todos os dias pela manhã e à noite. Para mim era uma festa. Ouvia-se o apito estridente da locomotiva e corriam todos para ver o trem. Abanávamos para passageiros desconhecidos que vez por outra retribuíam os acenos. Claro que isto acontecia quando as netas da cidade estavam lá, porque de resto o acontecimento era ordinário e ninguém se preocupava com ele. Um corredor, com quartos de ambos os lados, uma peça ampla com mesa comprida para refeições, cozinha separada e o porão. Ah! O misterioso porão. Não nos permitiam muito ir ao porão. No meio da noite ouvíamos muitos sons vindos de lá. Alguma coisa caía estrepitosamente. São os ratos! Mas tem rato no porão? Outras vezes tínhamos a nítida impressão de passos. Raposas! Raposas? Aquele porão da minha infância permaneceu para sempre nos meus porões, cheio de mistérios nunca muito bem esclarecidos. Retorno... Olho ao redor e aprecio os objetos de arte expostos nas bancadas. Todos me parecem misteriosos.

Labirinto

Era moda. Vestidos chemisier rodados, abotoados na frente, floridos e levemente longos. Deixavam as silhuetas esbeltas, femininas. Estela aderira ao modismo. Achava-se mais bonita e atraente. Estaria na época em torno dos quarenta e cinco anos. Era uma mudança porque costumava vestir roupas mais sóbrias como terninhos e blaisers em tons pastel. Quando ia para a escola notou sorrisos e gestos gentis dos motoristas dos ônibus. Comentara o fato algumas vezes. Aos poucos foi tornando-se desconfiada. Passou a queixar-se. Agora, aquelas mesmas pessoas diziam-lhe piadas, dirigiam olhares irônicos e falavam frases a pessoas próximas. Frases enigmáticas que só Estela entendia, sabia que aquilo era com ela. Por vezes freavam bruscamente, principalmente quando precisava descer do veículo. Passara a usar as lotações. Buscava o banco mais protegido porque o ar condicionado estava sempre no mínimo de temperatura. Estela sentia frio, muito frio. Iria adoecer na certa. Aquilo era só para ela pegar uma gripe. Depois começaram os cochichos, os olhares, os sorrisinhos e brincadeiras que Estela achava de mau gosto. Dizia que tudo havia começado entre os taxistas. Havia um ponto ali mesmo na esquina da rua onde Estela morava. Estavam sempre lá falando, gesticulando, rindo. Principalmente quando Estela passava. Deixou de usar os vestidos chemisier. Conhecia aquele de pele morena, já com bastante idade que comprava comida no prédio onde vez ou outra Estela pegava seu almoço. Era o pior de todos. Tinha certeza que ele espalhava boatos maldosos a seu respeito. Evitava passar pelo ponto. Agora só pegava carros de praça quando não havia alternativa. Queixou-se para o pai e para o cunhado que também eram motoristas de táxi. Estes resolveram dar uma incerta no local e ver o que estava acontecendo. Tomariam providência, se Estela, veementemente não os proibisse de fazê-lo. Dizia que poderia ser pior. Tinha medo. Depois foram os carros. Muitos carros que buzinavam quando passavam em frente ao prédio onde Estela morava. Principalmente à noite ou pelo amanhecer quando tudo ainda estava em silêncio ouvia o roncar de carros que arrancavam bruscamente ou ainda uma buzina estridente justo na frente do seu prédio. Sobressaltava-se. Achava tudo uma provocação.
Um dia chegou apavorada na casa da irmã. Andavam sobrevoando de helicóptero o prédio onde morava. Aquilo já era demais, Estela não sabia mais onde se meter, estava em pânico. Eram uma máfia aqueles motoristas. Foi quando a irmã teve a certeza. Já estava desconfiada. Quando tentava falar sobre a veracidade dos fatos Estela ficava desesperada por sentir-se desacreditada. Não. Não estava louca. Tinha certeza. Dez anos tinham se passado desde que tudo começou. Olha Estela, aquele moreno do táxi já deve ter morrido, pois já era uma pessoa de idade. Isto não faz mais sentido. Alzira insinuava apenas uma terapia e bastava para que ela fechar-se em copas. Durante algum tempo não falava mais na situação, porém percebia-se que sofria. O tempo passava e o terror era cada vez maior, mas Estela silenciava. Deu graças a Deus quando se aposentou. Também não suportava mais as perseguições na Escola. Era uma dedicada e excelente professora. Em seu último dia de trabalho recebeu homenagens e presentes de colegas e alunos.
Agora havia os vizinhos. Falava baixinho dentro de casa. No apartamento ao lado ficavam sempre colados à parede ouvindo o que Estela fazia. Se ligasse o rádio ou a TV tinha sempre que ficar com o som muito, muito baixinho. Os vizinhos implicavam com isto. Não gostavam que Estela fizesse barulho. Entrou em pânico quando um dia sua barriga começou a fazer ruídos e gases escaparam sonoros. Pronto. Foi um comentário geral. Estela via que as pessoas do condomínio riam, falavam e a olhavam de soslaio. Novamente foi sugerido um psicólogo. Eram conversas dolorosas para Estela. Olha, se é verdadeiro ou não todos estes acontecimentos, isto não interessa. O que importa é o mal que tudo isto está te fazendo. Precisas de medicação pelo menos contra a depressão que tudo isto te causa. Visto por este prisma a irmã até tinha razão. Estela finalmente aceitou, estava deploravelmente exausta.

Quanto tempo de sofrimento. Morava sozinha desde os trinta anos. Não dera sorte no amor ou de alguma sorte fugira de todos os homens que dela se aproximaram? Estela fora uma menina bonita, uma adolescente graciosa, uma linda moça e aos quarenta e cinco anos uma bela mulher quando as perseguições começaram. Separada dos pais em tenra idade vivera desde os cinco anos na companhia de uma velha tia de seu pai. Pelos nove a mãe de Estela morrera enfartada em um manicômio. Aos quinze passou a viver com o pai e a madrasta até que aos trinta resolveu comprar seu próprio apartamento. Estela estava agora com sessenta anos. Passou a freqüentar um psiquiatra e já não falava mais tanto de motoristas e perseguições. Ou talvez apenas se calasse. Talvez até ela mesma duvidasse da veracidade dos fatos e isto a torturasse ainda mais.
Em compensação passou a cuidar freneticamente do seu corpo. Alimentava-se com ansiedade. Temia perder os rins como acontecera com a irmã mais nova. Tinha gastrite e prisão de ventre crônica. Parou de comer carne, usar sal, tomar café. Comia cada vez menos. Emagrecera. Outro dia ficou internada com arritmia. Passou a contar os batimentos cardíacos com freqüência e a perambular por consultórios médicos variados. Sua salvação era a ioga, ou sua fuga. Talvez sua criança interior tenha perdido a proteção em tenra idade e continuasse lá, trancada em um recôndito de sua alma, com medo do mundo, seguindo uma viagem por estradas internas que invariavelmente desembocavam umas nas outras. Estradas sem saída.

Parece que não existe evasão para Estela, uma janela, uma porta. Seu inconsciente teria vindo à tona submergindo-a. Agora uma declaração de amor aos sessenta anos fizera Estela sorrir. Colocou brincos, pintou as unhas de rosa bebê, deu um trato na pele e uma coloração diferente nos cabelos. Seria capaz de matar o minotauro que vivia dentro de si? Teria encontrado o fio de Ariadne que a conduziria para fora do labirinto da natureza humana em que se perdera?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Se eu voltasse a ser criança

Se eu fosse criança outra vez me lambuzava no pó mágico de Peter Pan
voaria com ele pro mundo da lua só pra galopar no cavalo de São Jorge
Se eu fosse criança outra vez pegava carona no redemoinho do Saci
pra ver o sapo cururu e a mãe d’água cantar
na lagoa encantada bem no meio da floresta
Se eu fosse criança outra vez fugiria com Alice pro País das Maravilhas
Visitaria a princesa do castelo e a casa dos sete anões,
depois, daria uma volta na abóbora da gata borralheira

Se eu voltasse a ser criança faria o que sempre fiz
Sumiria dentro de um livro que é onde eu era feliz.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Parafuso

Meu inconsciente confuso
mistura nomes, palavras
poesias silêncios mudos
Gira, girando, girassóis e não
dá pra ver o que tem no fundo
fuso deste parafuso

Meu algoz

Aprendi a rir sozinha
a falar sozinha
a ouvir o silêncio
a escutar a minha voz
Meu algoz
assim me conservas
de castigo
por eu estar contigo
Uma forma de morte?

Mandala

Olho circular
pupila da mandala
Engrenagens da roda
presente passado
futuro, claro escuro
dia e noite arco íris
Circunferências da vida.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Preto-Velho

Um dia Preto Velho chorou
nos braços a criança
dor tão profunda
rasgou meu peito
lágrimas correram
coração sangrou
O destino?
Por quê?

Ah Preto Velho
não me disseste nada
fiquei assim
sem entender
a razão d’aquele triste chorar

Passados tantos anos
chorando um choro dorido
o coração sangrando
lembrei do teu choro sofrido
e entendi a razão

Aquele choro choraria
muitas vezes
vida afora
Como agora

Chuva da noite

Vasos velhos meio tortos
pendendo gerânios vermelhos
sob a chuva que tamborila
No telhado e no gramado
estrelas d’água pingadas
no breu da noite
a chuva chia silêncio

Partindo

A mulher de costas
caminha em direção ao deserto
Céu infinito de azul.
Partindo leva a bagagem da vida
na grande bolsa marrom
para muito além
Eu, nós, sós
Como a ilha.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lembranças

Descendo morros de roças
Encantos de fins de tarde
Sob parreirais estendidos
chapéu palha abas largas
Ondina, Inês e eu
Montadas em mula chucra
Entre cantos e risadas
Ainda ecoam nos meus sonhos
Bem depois das despedidas
Adolescências cruzadas
perdidas durante a jornada

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os porões de Ana Rosa

Tantas coisas havia nos porões de Ana Rosa, principalmente ratos. Dia desses, quando deu por si havia descido seus degraus e os encontrou. Eram ninhadas de camundongos. Uma sonora gargalhada fez doer sua cabeça. Lá estava seu Antero no velho armazém que Ana Rosa percorria agora. O balcão em L parecia-lhe tão alto naqueles tempos. Na verdade era mais alto apenas que seus nove anos. Os fregueses entravam por duas portas frontais. Em duas ou três pequenas mesas servia-se cachaça e ali corria sempre uma boa prosa entre os freqüentadores do ócio. Nestas horas costumavam correr com as crianças dali. A prosa tornava-se proibida. Onde o balcão dobrava em L era o lugar das bananas. Durante algum tempo comentava-se muito sobre a balconista, porque ela ajudava o dono da madeireira a escolher as bananas por detrás do balcão. Riam-se disso com um prazer malvado. Ana Rosa vislumbrou as prateleiras de balas, pirulitos, mariolas e amor-carioca. Lembrou da primeira vez que comeu um bombom. Derretia na boca. Uma única vez. Nos fundos do armazém ficava a serraria. Ali no meio da serragem um cão sarnento vivia amarrado. Era onde também brincavam as crianças da família e da vizinhança. Volta e meia pegavam sarna. Ao lado do armazém era a garagem. Uma espécie de sótão sobre ela guardava trastes, os ratos faziam seus ninhos e os gatos pariam. Volta e meia descobriam uma ninhada. Lindos, rosados e asquerosos ao mesmo tempo. Gatos também nasciam demais, porque gato vagabundo era o que não faltava a rondar por ali. Era quando acontecia aquilo, que até hoje permanecia em seu porão de lembranças. Seu Antero divertia-se a afogar gatos e ratos, quando não os jogava contra uma parede. Tinha-lhes horror, porque se infiltravam no armazém, nas casas e em todo o lugar a procura de comida. Rebentava-lhes o crânio às gargalhadas. Um prazer mórbido. Apesar disto, era muito devoto. Ia à missa aos domingos, freqüentava novenas, trezenas, comungava, auxiliava o padre, a paróquia, rezava o terço ajoelhado diante da Virgem todas as noites e era Filho de Maria. Era difícil para Ana Rosa justificar a morte brutal dos camundongos e dos gatos. Como Deus entendia aquilo? Mas, parecia que se dava bem com Deus.
Até que, depois do segundo filho homem do Seu Antero, nasceu uma filha mulher. Viveu apenas algumas semanas e sua morte foi um mistério. Ninguém entendia a razão, nenhum médico conseguiu diagnosticar a doença. Diziam que o problema era na cabeça. Nasceu o terceiro filho homem sadio e a segunda menina veio logo depois. Novo corre-corre, a criança ficou doente. Perderam a segunda menina e o problema parecia ser o mesmo. Ninguém explicava, nem os médicos sabiam ao certo. A vizinhança já falava no episódio dos ratos e dos gatos que eram mortos de forma brutal. Morriam ao bater com a cabeça. Mudaram-se dali para uma casa melhor. Os negócios iam bem. Seu Antero vendeu sua parte no armazém, os meninos estavam grandes e novamente outra gravidez. Tinham três meninos e loucura para ter uma filha. Esta se chamaria Maria. Nasceu Maria da Conceição como promessa para vingar. Uma semana, duas, três e a esperança aumentava. Uma manhã recusou o alimento. Limpavam-lhe a baba que começava a escorrer. Entra e sai de médicos. Os melhores. Desenganaram. Aquele dia que ela foi pro céu seu Antero e a mulher de hora em hora ouviam-lhe a respiração e o desespero saia pelas janelas. Havia parentes na casa. Choravam muito. Não faltou quem falasse à boca pequena no episódio dos ratos e dos gatos. Morriam com suas cabecinhas esmagadas contra a parede. Ana Rosa ao retornar dos seus porões ainda pode ouvir algo semelhante a um choro. Ou seria miado? Ou guinchos de ratos? Lembrou que faltava pão em casa. Foi até a padaria da esquina. Seu Joaquim estava lá a reclamar dos gatos e dos ratos que infestavam aquele bairro de São Paulo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Anoitecendo

Tecendo tecido em teia
cai a tarde em violeta
No tecido azul escuro
pequenos furos brilhantes
rasgam a abóboda celeste

Pontos de luz pirilampo
tramam a tela da noite
Tessitura de grilos cantantes
um primeiro outro depois
depois outro em sinfonia
harmonia que anoitece

sábado, 12 de junho de 2010

A corda

acorda
que
a
corda
esticada
tensa
rebenta
benta
estraçalha
a malha
da
corda
do
coração
a
corda

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A cabeça

Ela estava sobre a mesa da oficina. Uma cabeça de gesso, oca, com uma abertura no crânio. Branca, apenas com filetes dourados que adornavam o entorno como uma touca. Seria simplesmente uma cabeça de gesso, não fosse o rosto simétrico e a expressão da face. A boca bem contornada, carnuda, o nariz pequeno, os olhos em forma de amêndoa e sem pupilas, mas mesmo assim expressivos. Volta e meia surgiam na minha lembrança, depois que deixamos os trabalhos da oficina literária. À noite, antes de dormir sua imagem se instalou na minha mente. Agora, já não era simplesmente uma cabeça. Tinha corpo e membros, vestia uma túnica azul, longa, com os mesmos arabescos dourados que a adornavam. A touca era agora um cone, de cuja ponta saíam fitas de muitas cores misturadas a um longo cabelo negro. Não restava dúvida. Aquela criatura vinha de algum lugar distante. Ficamos nos olhando, de longe, em silêncio. Eu a examinava com curiosidade. Ela deixava-se examinar. Aproximou-se. Sou da terra dos faraós. Tenho milhares de anos e de há muito cuido dos papiros e dos escritos, muito antes de tudo ter sido destruído pela ignorância e barbarismo do homem. Apesar de terem sido queimados eles existem, em outro plano, na memória da humanidade. Entregou-me um rolo cheio de caracteres para mim desconhecidos e em seguida foi esmaecendo até desaparecer, deixando apenas uma névoa em seu lugar. Acordei sentindo aquela presença e o impulso normal que me leva a rabiscar papéis.

sábado, 29 de maio de 2010

Grilhões

Grilhões atados aos pés.
Asas de garças querendo
Levantar o vôo branco
Sobre mar de amargura

Borboleta negra
Pousada no
Coração de manteiga?

A dor verde escorre
Musgo e líquen
na face de folhas

Lancinante e aguda
nasce uma flor
na minha cabeça.
Despetalo e desmaio

Pitangas rubras

Impulsos de pedras polidas.
Lianas de saudades?
Descaminhos no labirinto de espelhos
Deslumbra labaredas de suspiros.
Vergonhas inconseqüentes de pitangas
Rubras, doces, escoando de azuis.
Vozes e cantigas coloridas, mudas,
Que o giro dos sonhos traduz.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Porões

Outro dia fiz uma visita. Conheci o local de trabalho de artesãos aprendizes. Fui descendo escadas um... dois... três... degraus... mais alguns... mais pra baixo... o cheiro do barro seco, da argila molhada entrando nas minhas narinas. Respiro um ar úmido. Ao redor peças esculpidas... uma moranga, um rosto, uma concha. No fundo uma saída para um pátio com árvores antigas, folhagens e um banco de jardim. De repente não estou mais ali. O porão é outro, muito antigo. Uma casa sobre ele. Subo as escadas e reconheço a casa da vó de fora. Assim nós a chamávamos para diferenciar da nossa avó Marieta que vizinhava conosco em Porto Alegre. A casa no bom estilo italiano ficava nos arredores de Barbosa, quer dizer, município de Carlos Barbosa. Ficava no alto, encravada em terreno irregular. Na frente uma sala ocupava toda a largura. A porta principal dava para o avarandado e enfim para o jardim. O terreno continuava acidentado de modo que depois do jardim subia-se uma ladeira e chegava-se então aos trilhos do trem. Sim, o trem passava por ali, dividindo ao meio as terras do meu avô. O trem passava todos os dias pela manhã e à noite. Para mim era uma festa. Ouvia-se o apito estridente da locomotiva e corriam todos para ver o trem. Abanávamos para passageiros desconhecidos que vez por outra retribuíam os acenos. Claro que isto acontecia quando as netas da cidade estavam lá, porque de resto o acontecimento era ordinário e ninguém se preocupava com ele. Um corredor, com quartos de ambos os lados, uma peça ampla com mesa comprida para refeições, cozinha separada e o porão. Ah! O misterioso porão. Não nos permitiam muito ir ao porão. No meio da noite ouvíamos muitos sons vindos de lá. Alguma coisa caía estrepitosamente. São os ratos! Mas tem rato no porão? Outras vezes tínhamos a nítida impressão de passos. Raposas! Raposas? Aquele porão da minha infância permaneceu para sempre nos meus porões, cheio de mistérios nunca muito bem esclarecidos. Retorno... Olho ao redor e aprecio os objetos de arte expostos nas bancadas. Todos me parecem misteriosos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fogo-fátuo

Eu canto a vida da Terra
passeios de saibro, groselheiras
o que é ser uma pessoa?
vida que foge por todos os cantos
rochedo, fogo-fátuo, clareira
entre sonho e fantasia
a realidade
Um dia terei desaparecido

domingo, 9 de maio de 2010

Os pretos e os brancos

No princípio era a Cor... o Caos coloria-se em uma exuberância de diferentes tons e nuances, emaranhando-se em um novelo até o momento em que as Cores começaram a separar-se, definir-se e fazer suas próprias criações. Alguns tons formaram uma imensa bola marrom que se transformou no atual conhecido planeta Terra. O verde e suas nuances cobriram então o solo do planeta. Ainda meio misturado com o azul formou os oceanos e todas as águas. Porém fora daquela imensa bola e ao seu redor a supremacia foi toda do azul. Um pouco mais claro aqui mais escuro acolá e surgia o Céu. O amarelo criou estrelas brilhantes que flutuaram na imensidão. Amarelou tanto que ficou dourado e então surgiu o Sol, a estrela que aqueceu e vivificou tudo com seus raios de luz. Sim, porque o amarelo foi quem deu a luz. Vermelhos, encarnados, escarlates e violáceos tingiram a aurora no instante em que o Sol surgia no horizonte da Terra. Houve um momento em que as Cores separaram-se e alinharam-se no Céu logo depois da chuva, para logo em seguida esmaecer e aos poucos retornar aos seus próprios lugares. Era o arco-íris, ainda como o conhecemos hoje. E, como que para celebrar a harmonia, cada uma das cores, tons e nuances teceram as flores. Quiseram então superar-se nas mais diversas e inusitadas formas coloridas que alegram a vida e a morte no planeta. Quando resolveram criar formas livres surgiram os animais, mas já um tanto cansadas esmeraram-se mais nas formas do que no colorido. São muitas as formas animais que habitam a Terra. A última criação das Cores foram os seres humanos. E por estarem assim, meio que entediadas, criaram o homem e a mulher de tamanhos e formas variáveis dentro de um mesmo padrão, porém sem cores: Uns brancos outros pretos, um pouco mais, um pouco menos, uns pardos, outros tendendo para o amarelo, nada muito significativo. Nenhum melhor que o outro, nem mais exuberante.

sábado, 8 de maio de 2010

Maria Mulher

Marias de todas as cores
Marias de todas as dores
Marias de todos amores
Marias sagrando a semente
Mulheres marias somente
Mulher fortaleza macia
Gestando a vida que cria

Paz na guerra

Bombardeio que cessa
a explosão que mata
Crianças de asas abertas
anjos famintos que pairam
no céu vermelho da guerra
a hera sobe silenciosa
grudada no muro de pedra
Zumbem moscas voejando
contra as vidraças da janela
torpor paz de momento

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A origem da mulher

Conta a lenda que a Terra era povoada apenas pela sua vasta vegetação, por animais os mais variados de que se tem notícias e pelos homens. Foi quando pequenas larvas pareciam brotar do tronco de determinadas árvores, as mais fortes e altaneiras somente. Agarradas aos troncos iam tecendo um pequeno casulo, que com o passar do tempo agigantou-se, continuando a crescer. Dentro do casulo ia ocorrendo uma transformação. Não era mais uma larva, mas uma borboleta enorme, com lindas asas transparentes. Mais um tempo e a borboleta foi ganhando contornos, pernas, braços, um lindo rosto com olhos curiosos e sábios e uma farta cabeleira, às vezes negra, às vezes ruiva ou loura. A mulher surgia assim, andrógina, alada, através de um casulo que ela mesma tecera. Encerrava em si mesma qualidades como a fortaleza e a lógica, porém com uma profunda sensibilidade e sabedoria, que havia adquirido através do seu contato com a natureza e com aqueles acolhedores troncos. E por ser alada e ter sido gerada em uma frondosa árvore, seus primeiros diálogos foram estabelecidos com os pássaros. Entendia-se bastante bem com as araras coloridas e com as caturritas tagarelas, porém não deixava de sensibilizar-se com o canto mavioso do rouxinol. Vem daí algumas características que até hoje possui. Assim que se libertou do casulo procurou estas aves companheiras. O que é isto? Perguntou para as caturritas, apontando uma pequena fruta. Coma é uma pitanga! Assim a mulher foi descobrindo como se alimentar. Ensina-me a cantar, pediu ao rouxinol e passou a emitir sons cada vez mais afinados. As araras davam-lhe as penas coloridas que vez por outra caiam de sua plumagem. E a mulher enfeitou-se. Como era um ser andrógino, de 7 em 7 anos gerava outro ser igual a si mesma, que crescia e transformava-se em uma outra linda mulher. Viviam assim em clã. Um dia encontrou o homem. Algo estranho aconteceu. Inexplicavelmente foi atraída pela luz daqueles olhos estranhos. Arrepiou-se. Ficou cativa, porque a mulher tem destas coisas, quando descobre o amor. Novos processos ocorreram e seu corpo transformou-se. Porém o homem, que não havia sido criado no tronco das acolhedoras árvores, nem havia estabelecido este contato tão íntimo com o gorjeio dos pássaros, acostumado a dominar tudo que possuía, achou por bem exercer seu domínio sobre aquela mulher que o cativara tanto. Foi quando, pouco a pouco, a mulher perdeu sua androginia e suas asas. Esta é a mulher que sobrevive hoje, lutando para voar e dependente para procriar. Que sina!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para ter paz


Mergulho em noite escura
Ogros tormentos monstros
Bailam em minha cabeça
Desço aos infernos da alma
Porque não te reconheço
De que culpa eu padeço?

Sei. Sou assim exagerada
Meu amor te pesa tanto
Que te afastas e me exclues
Do teu riso e do teu pranto

Como forma de ter paz
Resolvi modificar
exigir senão o mínimo
que alguém me pode dar

Como forma de ter paz!

sábado, 3 de abril de 2010

Se essa rua fosse minha


Fim de tarde bola de fogo
pousada no fim da rua
bem no topo da ladeira

Chão batido sinuoso
essa rua serpenteia
entre portões de madeira
e pés de jacarandás

Se essa rua fosse minha
eu a deixaria bem assim
eivada de sonhos e capim

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Dona Marieta

Lembro dela com as cadernetas na mão, somando, diminuindo e cobrando. Naquele tempo, as compras eram anotadas em cadernetas, vendia-se fiado desde o feijão até as bananas. A maioria pagava. A palavra valia e o fio de bigode era a garantia. Não lembro da minha avó paterna sorrindo. Era sócia com o filho e um sobrinho em um armazém de secos e molhados. Mantinha a família toda na linha e unida. Corpulenta, cabelos puxados em coque, óculos, roupas escuras, fisionomia sempre séria. Chamavam-lhe Dona Marieta. Para uns uma fortaleza, para outros uma carola rabugenta. O fato é que viera do interior depois que enviuvara e por duas vezes o pequeno hotel que era o sustento da família pegara fogo. Foi quando resolveu instalar-se com os filhos em Porto Alegre. Estes, já casados permaneceram ao redor da mãe. Dona Marieta, os filhos, os netos – dominavam a rua. O armazém constituía-se também de uma serraria e uma revenda de bananas. Entregavam o rancho, o leite e as achas de lenha usadas para alimentar os fogões da época.
Dona Marieta era famosa. Logo na primeira hora arrumava-se e subia a rua com passos firmes em direção à igreja. Não perdia a missa das sete. Vez por outra os padres apareciam em sua casa. Às oito já estava no armazém. Aos pobres que chegassem bem cedo entregava os pães dormidos de graça, os que sobrassem do dia anterior. Uma espécie de caridade. Dava conselhos e também carraspanas aos que ali vinham fazer suas compras, se julgasse necessário. Seu João cuidado com a bebida, depois a família passa fome! Não poupava as sirigaitas que pintavam as unhas e não cobriam os braços até o cotovelo. Aos domingos levava os netos para a missa. Uns preferidos outros menos. Nenhum queria sentar-se ao lado da avó. Fugiam para a ponta do banco. Qualquer movimento que a desconcentrasse da missa, lá vinha um beliscão, daqueles bem torcidos. Era considerada uma pessoa forte, corajosa e boa. Eu, por conta dos beliscões queria mais era distancia da dona Marieta.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mapa Astral


Cheguei ao mundo capricornianamente.
Sabia que meu Leão seria acorrentado
pelo gigante Saturno e pelo destruidor Plutão,
na casa que não seria só minha.

Minha Lua faceira queria brincadeira
na casa das diversões. Diversificar
geminianamente amar e criar
junto com o imprevisível Urano.
E assim pelo coração ganhei minha filha
e me tornei mãe e professora de
filhos que não seriam só meus.

Mas, minha Lua ainda bateu de frente
com a senhora Vênus que
desafiadoramente me disse: Amar?
Não te darei esta liberdade.
Teu amor, estará a serviço das deusas
e estas são muito exigentes.
Sou hoje, filha de Yemanjá
Trabalhando pelos carentes.

Teu sexo seguirá a mesma exigência.
E se Urano desafia o deus Marte
muita brutalidade vem pela frente.
Não deu outra, cirurgia e acidente.
Melhor seguir os caminhos traçados
E sair pela tangente ...

“Faça, minha amiga, deste limão,
uma limonada, se é que te apraz”
foi o que me disseram os deuses.
“O livre arbítrio é pra’quele que é capaz.”

Minha Lua que é curiosa e sabida
fez um belo trato com Netuno
e deixou a fantasia rolar.
Por outro lado, meus pensamentos
fizeram incursões na casa da morte
em conjunção com deus Plutão,
regiamente, e deu nisto: escrever
sobre os submundos das almas
machucadas e feridas.

Júpiter desafiou-me lá de cima,
minando minha confiança, em compensação
fez com o Sr. do imprevisível um belo trato
e ganhei a permissão pra falar de astrologia,
e fugir da maldição pela escrita e pela poesia.

Sombras

Altar profanado
Sombra de asas
Abrigos
Leões ávidos
Quero acordar amora
Tramóia, insídias
Abismo da morte
Emudecido silêncio
Máscara de cera.

Cataventos de outrora

Regatos de pássaros, sílfides
Roubam o espírito das águas?
Lusco-fusco cinzento entre
O por-do-sol e a aurora
Sons de violinos sonolentos
Entoam cantilenas no giro
Dos cataventos de outrora.

Infâncias

Três rostos três infâncias
Rosa e azul no recanto
Cada uma no se canto
Em cada quina do retrato

Dois sorrisos e um siso
No papel amarelado
Três infantes e três vidas
Desde sempre abandonadas

No sorriso uma esperança
De um vestido azul rosado.

Espiral


Ponto de luz em espirais
sou vida ali parada
energia que refaz. Um pouco
assim dormente em ais
Desejo esquecer o rastro
esquivo, torto, sinuoso
do caminho solitário
doloroso. Voltar atrás.

Mergulho

Regata de cristal segredo,
Caminho de mergulho e mar
Espelho telhado da juventude
Calor em gotas de quietude
Córrego, corredeira, riacho
Percepções em ondas harmônicas
Em quimeras esticadas
No horizonte da vida

Rebelião

Bom era ser folha
No vento amarela
Ser doida varrida
Pelo vento que
A folha leva

Bom era ser pedra
que rola da sanga
na corrente do rio
lodo limo líquen
pedra de fio
e não estar nem aí
pra ninguém

Arrebol

Rosto de mar.
Secava galhos os olhos
Como roupa no varal.
Sonhos no poço do tempo,
Dependurados para ver
Empassarados de sol.
Arrebol

Filha princesa

Os anéis anis nácar
Da arca arcana, prensa
Ânsias de asas, apenas
Ápice, raia anseia
Nascer, do nada precisa.

Renasce do nada Acesa as ânsias
Criança princesa Anéis nácar
Risca, precisa Apenas asas.

Irmã

Para muito além
envolta em verde esperança
Nas costas, a bolsa
bagagem da vida
dores, secretos amores
sonhos de alcachofras cor de rosa
O que te espera?
Docerindo
indomável cavaleiro
quiça?

A gente deserto, aridez d`areia
Na feira da multidão
almofadas, quinquilharias
filhos, irmãs
os olhos pranteia

Amanhecer

Cheiro de árvores.
Coisas da terra?
Torpor animal
amanhecendo em delírios
engolindo auroras.
Olhada de azul
criança ave
voava fora da asa.

Sítio

“Uma bananeira de caturritas corta o azul de verde,
um sapo encharcado de pedra coaxa na direção do Sol,
trinados e piados rasgam o ar de passarinhos árvores, enquanto a espinhenta vermelhorosa desfolha seu perfume ao vento".

Carnaval

Pela rua, na noite de lua, descem feito loucos, sempre a cantar
Fogos de artifício, sangram luzes salamandras espoucam no ar
Dementes pegam carona em estrelas cadentes que ali vem brincar
E aquela gente tão sofrida de tanto contente se põe a dançar

Orvalho e alegria se espalhou e a madrugada fria se aqueceu
A multidão em paz finalmente redimida na calçada adormeceu
Pierrô e Colombina entre confete e serpentina fizeram amor
Cheios de ternura e graça não viram o tempo que ali passou
E o pobre Arlequim
Em sua dor sem fim
Chorou

A concha

A concha gulhopedra
Trança cestilho quebrado
Cristal crispado de mar
Malha maresia Espalha
cestos azul turqueza
O ninho? Talvez
A filha? Sei lá.

Lampiões do tempo

A casa esbaforida
Estampada de seda
Na embalagem florida.
O tope vermelho viria?

A caixa amontoava luz
Bolas verdes riam de alegria
Tão alto, o nheiropin
Acetinava os tempos
Dos lampiões lampados
E dos lenços de cetim.

Estampados de lembranças
Na parede pendurados
Retratos de outras andanças
Vestiam vestidos rosados.

Odara

Negro véu de renda
Mistério trançado
Nas tramas do destino?
Olhar dissimulado.

Embabadado de seda
Plissado de barra
Luva, sapato, vestido
Trança rubra oferenda.

Oblíqua, velada, enrustida
Atrás do leque m`encara
Quem sou? Quem és?
Feiticeira, cigana, traiçoeira
corpo e alma mulher odara

Docemel

Não tenho mais o tempo
Não tenho o docemel
nem tampouco a alegria
das paixões em carrossel
Pudor calmo, pacífico
Encobre amores de bordel

Vestido de baile


Velho vestido de baile, esquecido
entre porcelanas e castiçais.
O gato não tinha consciência?
Descobertos, renascidos, antigos
amores âncoras palpitantes

O gato só, velho como o serpe
Olhos amarelos, no canto
guardando encantos e prantos
E amuletos esquecidos.

Olhos e olhares

Olhos, olhadas, olhadelas
Uns em rodelas
Outros em amêndoas
Ferozes fitam-me de águia
Curiosos miram-me de lince

Mau olhado olho grande
Rebento de plantas. Olhos d`água
Prescrutam-me a alma? Olhos de lua
Não me deixam pregar o olho
Colocam-me no olho da rua

Olheiras, olhaduras
Olhos de sapo, profanos
Aguados de prata no fundo
Custam-me os olhos da cara
Os profundos olhos humanos.

Brinde

Taça vazia
seca esquecida
qual fruta caída
nos lençóis sem cor
Cálice cala-se
apaga-se
vida sem dor
Apenas lágrimas
Gotas que brindam
o deserto dos anos
novos enganos
não mais dor
Meia-Noite
tim-tim!

domingo, 7 de março de 2010

Rumo

Minha palavra revoa
mas não corre à toa
Tem destino certo
como o leito de um rio
Seu rumo é o horizonte
a liberdade da vazante
concha segura nas mãos
E não é por acaso
que leva o ocaso
no dorso do rio.

Égua baia

Égua baia tordilha
cruzando riachos de pedra
subindo morros de roças
Minha égua voando
ao sabor do vento quente
Meu corpo seu corpo suados
misturados na liberdade
galopando riso aberto
ao encontro de um destino
tão incerto

Autorretrato

O que vejo no espelho?
Vestígios da vida minha
restos do que já fui...

Retorno intacta
quando dele me afasto
A criança ainda persiste
atrás do espelho já gasto.

terça-feira, 2 de março de 2010

O vestido de Maria Rita

Maria Rita era fininha e delicada como uma taça de cristal. Suas pernas compridas renderam-lhe o apelido de saracura do banhado. Tinha lá seus 10 anos e vivia entre a casa da tia, onde fazia as refeições e o quarto onde dormia junto ao pai, depois que sua mãe enlouquecera e a família a colocara no hospício. A menina fora para a colônia, passar férias na roça. Estava lá despreocupada quando chegou um carro. Era um carro de praça? Levaram Maria Rita para a cidade às pressas. Pressentindo algo de ruim enjoou. Tiveram que parar o carro para Maria Rita vomitar. Dito e feito. De longe avistou a tampa do caixão encostada à porta da casa e no caminho muita gente que a olhava com um misto de compaixão e estranheza. Era verdade. Sua mãe morrera. Quer dar um beijo na mamãe? Não. Por quê? Não adianta mesmo. Vestiram-lhe o seu único vestido tingido de preto! Nunca tinha ganho um vestido como aquele. Saia cigana. Branco com raminhos de flores miudinhas, babados superpostos. Vestido rodado, como o chamava, feito pela tia Lúcia, que era também costureira. Lembrava do dia em que escolhera o modelo na revista das modas. É este aqui, tia, este aqui que eu quero. E agora aquilo. Mamãe morrera e o vestido ficara preto.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Claridade

Tardes longínquas perdidas
Na correnteza dos anos.
Bancos de jardins escondidos
Escondendo amores profanos

Sou água das grotas da alma
Sou terra do mato-jardim?
Ressurjo como claridade
Nos esconderijos dentro de mim.

A miséria do mundo

A preguiça da cuíca embala a miséria
Do mundo. Explica o recheio do osso,
A saudade de veludo da carícia e
O saco cheio do desdentado.
Malícia?
Brincadeira de Deus

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Alma

Alma pássaro
pios de vida
balanços de rede
céu pinheiro azul
assoviu de vento verde
cão vagabundo
no meio da rua
flor borboleta nua
Sou lagartixa
alma que espicha
no espinho da rosa
cansada da prosa
da dor amarela
que minh'alma embala

sábado, 30 de janeiro de 2010

Folhas de outono

Acolchoado macio de folhas
Amarelam tapetes de outono.
Casca de árvores, carícias?
Limiar de pausas e escolhas?

Cercas de jardins, ruínas,
Resinas doces de azinheiras.
Horizontes de navios e barcos
Arcos de tempos sem fronteiras.

Água e musgo

Sou água e musgo
Enverdecendo as paredes dos muros.
Ramos de lua e raízes de sabiás
Pingam poesia na correnteza do rio.
Corre entre as pedras
A loucura das palavras
Entrecortadas de luz.

Janela da alma

A poesia é uma janela
que nem sempre se abre.
Quer-se espiar para fora
E parece trancada à chave.

A poesia é uma janela
Entre a alma e o mundo lá fora
Mas nem sempre se abre
Quando precisamos dela.
Fica lá, fechada
De repente uma lufada
E a poesia sai por ela.

A fita

A fita me fita
Se embrenha se infiltra
Se enrosca e enredilha
No meio de tantas outras.

No monte das linhas
Cordões e barbantes
Trancelins da vida minha
Por que me fitas ó fita?

Só fazes fita e gritas
Pra me pegar de surpresa
Vestindo lembranças
De tantas desditas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um lugar preferido

Tinha um porão. Lembro que tinha um porão. Toda casa de imigrantes que se prezasse tinha um porão e lá aconteciam a feitura da liguiça assim como do vinho caaseiro dentro de enormes pipas. A casa era em L. Numa ponta a despensa e o lavador de louça feito de madeira. A água escorria diretamente para a horta. A cozinha grande com um fogão a lenha sempre aceso e uma mesa comprida onde tomava-se o café da manhã e fazia-se a ceia: polenta, toucinho e liguiça fritos, ovos e radiche com muito vinagre de vinho. Antes da cozinha uma sala com outra mesa comprida onde recebia-se as visitas e fazia-se a refeição do meio-dia. Logo em seguida a casa dobrava e lá ficavam vários quartos. O último, pequeno, no final do corredor, o quarto de hóspedes, era o meu. Quando em férias escolares eu era mandada para as colônias. Para engordar, como dizia meu pai. Mas, voltando ao meu quarto ele era assim: uma cama grande, de casal, com colchão feito de palhas de milho. Quando a gente levantava pela manhã e estendia a cama, colocava-se as mãos em duas fendas do forro e afofava-se a palha. Completava a mobília um baú enorme, de madeira. Ali dentro eram guardados colchas, cobertores, toalhas com muita naftalina e alfazema. Em cima do baú ficava a minha mala. Algumas poucas roupas e utensílios necessários.
Mas, o que eu mais gostava mesmo, era das duas janelas. Uma ficava à direita da cama e a outra, em frente. Pela da direita, o vidro espelhava a cozinha e a sala e na frente havia sempre uma paisagem inesquecível. Em noite de lua cheia, um disco luminoso clareava tudo. Durante o dia avistava-se ao longe um morro verdinho com um pinheiro na ponta. Quando cansava das leituras, sim, porque os livros eram a minha melhor companhia, eu descansava os olhos no alto do pinheiro. Muitas horas passava ali, recostada nos travesseiros de palha, lendo e escrevendo histórias. Vivi em muitas casas durante a minha vida, mas em nenhuma tive um lugar tão meu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A casa tomada

Foi quando a levaram depois de tantas idas e vindas, definitivamente, para o hospício. Por que para o hospício? Porque as clínicas particulares eram caras. Não dá mais para pagar, falava o pai. A Tita ficou com a avó, a Lili, tão bonitinha, foi escolhida pela tia Carmela, e Maria ficou por ali, feito cão sem lugar. Dormia e fazia as refeições na pensão do tio Ângelo, junto com seu pai. Naquele primeiro dia foi estranho. Depois do almoço quis voltar pra casa. Foi até lá, ficava perto. A porta entreaberta. Faltavam algumas coisas. Onde estava a máquina de costura da mãe? Todos os dias faltavam coisas, todos os dias retornava para olhar a casa... Seu pai não respondia às perguntas angustiadas. Um dia desses eles estavam lá. Pessoas estranhas estavam morando lá? Ficou perambulando no entorno. Depois, correu para avisar o pai. Ele já sabia. Sua mãe não voltaria? Maria conheceu a sensação de ter sido tomada, sua casa, sua vida.