terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um lugar preferido

Tinha um porão. Lembro que tinha um porão. Toda casa de imigrantes que se prezasse tinha um porão e lá aconteciam a feitura da liguiça assim como do vinho caaseiro dentro de enormes pipas. A casa era em L. Numa ponta a despensa e o lavador de louça feito de madeira. A água escorria diretamente para a horta. A cozinha grande com um fogão a lenha sempre aceso e uma mesa comprida onde tomava-se o café da manhã e fazia-se a ceia: polenta, toucinho e liguiça fritos, ovos e radiche com muito vinagre de vinho. Antes da cozinha uma sala com outra mesa comprida onde recebia-se as visitas e fazia-se a refeição do meio-dia. Logo em seguida a casa dobrava e lá ficavam vários quartos. O último, pequeno, no final do corredor, o quarto de hóspedes, era o meu. Quando em férias escolares eu era mandada para as colônias. Para engordar, como dizia meu pai. Mas, voltando ao meu quarto ele era assim: uma cama grande, de casal, com colchão feito de palhas de milho. Quando a gente levantava pela manhã e estendia a cama, colocava-se as mãos em duas fendas do forro e afofava-se a palha. Completava a mobília um baú enorme, de madeira. Ali dentro eram guardados colchas, cobertores, toalhas com muita naftalina e alfazema. Em cima do baú ficava a minha mala. Algumas poucas roupas e utensílios necessários.
Mas, o que eu mais gostava mesmo, era das duas janelas. Uma ficava à direita da cama e a outra, em frente. Pela da direita, o vidro espelhava a cozinha e a sala e na frente havia sempre uma paisagem inesquecível. Em noite de lua cheia, um disco luminoso clareava tudo. Durante o dia avistava-se ao longe um morro verdinho com um pinheiro na ponta. Quando cansava das leituras, sim, porque os livros eram a minha melhor companhia, eu descansava os olhos no alto do pinheiro. Muitas horas passava ali, recostada nos travesseiros de palha, lendo e escrevendo histórias. Vivi em muitas casas durante a minha vida, mas em nenhuma tive um lugar tão meu.

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