"A Arte precisa ou de solidão, ou da miséria, ou da paixão. É uma flor de rocha que exige um vento áspero e rude." (Alexandre Dumas Filho)
terça-feira, 2 de março de 2010
O vestido de Maria Rita
Maria Rita era fininha e delicada como uma taça de cristal. Suas pernas compridas renderam-lhe o apelido de saracura do banhado. Tinha lá seus 10 anos e vivia entre a casa da tia, onde fazia as refeições e o quarto onde dormia junto ao pai, depois que sua mãe enlouquecera e a família a colocara no hospício. A menina fora para a colônia, passar férias na roça. Estava lá despreocupada quando chegou um carro. Era um carro de praça? Levaram Maria Rita para a cidade às pressas. Pressentindo algo de ruim enjoou. Tiveram que parar o carro para Maria Rita vomitar. Dito e feito. De longe avistou a tampa do caixão encostada à porta da casa e no caminho muita gente que a olhava com um misto de compaixão e estranheza. Era verdade. Sua mãe morrera. Quer dar um beijo na mamãe? Não. Por quê? Não adianta mesmo. Vestiram-lhe o seu único vestido tingido de preto! Nunca tinha ganho um vestido como aquele. Saia cigana. Branco com raminhos de flores miudinhas, babados superpostos. Vestido rodado, como o chamava, feito pela tia Lúcia, que era também costureira. Lembrava do dia em que escolhera o modelo na revista das modas. É este aqui, tia, este aqui que eu quero. E agora aquilo. Mamãe morrera e o vestido ficara preto.
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