quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mandalas de água

Abriu os olhos e espreguiçou-se. Acordou com o barulho dos pingos e o chiado constante de uma chuva que caía lenta, contínua. O dia anterior havia sido quente, de um sol espraiado, de um céu sem nuvens, de brigadeiro como se diz, por isto a chuva era uma surpresa. Ana Rosa bocejou, era tão cedo ainda, seis horas quando muito. Cobriu-se melhor, enroscou-se nas cobertas, aninhou-se outra vez na cama. Era esta a sensação que lhe causava a chuva lá fora, de aconchego. Sensação que a remetia para longe no tempo, para seus porões, para sua infância mais precisamente. Que ano seria aquele? 1950? 51 ou 52? Ana Rosa não teria mais que cinco anos quando a enchente chegou. Nunca tinha visto aquilo. Junto com as irmãs, menores ainda que ela, debruçava-se na janela. Se é que se pode chamar de janela um buraco quadrado que fechava-se com duas folhas de madeira. Não havia vidraças e assim ficavam com meio corpo para fora a espiar a enchente. Era tão alta aquela janela. Lá embaixo, na água suja e barrenta os barquinhos de papel flutuavam. Extasiadas, hipnotizadas por aqueles círculos concêntricos, por aquela mandala de água que cada barquinho provocava, Ana Rosa e as irmãs torciam para que a pequena embarcação chegasse à outra margem. As crianças eram as únicas que se divertiam com tudo aquilo. Para os adultos, um caos. A casa de madeira estava úmida. Saia-se da casa ou entrava-se nela com água quase nos joelhos. Sorte que a casa era alta. A noite chegara. Está igual àquela de 41! Ouvia a conversa dos grandes. Lembrou-se do pai, capa e bota e ainda assim encharcado, chegando do escuro molhado da noite e admirou-o. Seu pai não tinha medo do escuro, nem da enchente. Ana Rosa por sua vez esperava amanhecer novamente para atirar mais barquinhos de papel à água e ficar olhando aqueles círculos formarem-se e ampliarem-se até bater na margem extinguindo-se. Aquela contemplação a extasiava. Sabe-se lá aonde aquilo a conduzia. Voltava a si pelo chamado da mãe. Vem comer a banana Ana Rosa! E assim o chiado da chuva ao acordar e as mandalas de água lhe ficariam guardadas na memória para sempre junto com o sentimento de aconchego e proteção. Crianças são assim mesmo, vêem beleza até no meio da desgraça. Outro bocejo e Ana Rosa virou-se para o lado, acomodou novamente as cobertas e adormeceu. Sonhando viu casebres de madeira na beira da estrada rodeados de água da chuva. Em muitos deles haveria crianças brincando com barquinhos de papel. No sonho o aconchego misturou-se a um incômodo sentimento de culpa. Por que tinha que ser assim?

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