domingo, 17 de outubro de 2010

Labirinto

Era moda. Vestidos chemisier rodados, abotoados na frente, floridos e levemente longos. Deixavam as silhuetas esbeltas, femininas. Estela aderira ao modismo. Achava-se mais bonita e atraente. Estaria na época em torno dos quarenta e cinco anos. Era uma mudança porque costumava vestir roupas mais sóbrias como terninhos e blaisers em tons pastel. Quando ia para a escola notou sorrisos e gestos gentis dos motoristas dos ônibus. Comentara o fato algumas vezes. Aos poucos foi tornando-se desconfiada. Passou a queixar-se. Agora, aquelas mesmas pessoas diziam-lhe piadas, dirigiam olhares irônicos e falavam frases a pessoas próximas. Frases enigmáticas que só Estela entendia, sabia que aquilo era com ela. Por vezes freavam bruscamente, principalmente quando precisava descer do veículo. Passara a usar as lotações. Buscava o banco mais protegido porque o ar condicionado estava sempre no mínimo de temperatura. Estela sentia frio, muito frio. Iria adoecer na certa. Aquilo era só para ela pegar uma gripe. Depois começaram os cochichos, os olhares, os sorrisinhos e brincadeiras que Estela achava de mau gosto. Dizia que tudo havia começado entre os taxistas. Havia um ponto ali mesmo na esquina da rua onde Estela morava. Estavam sempre lá falando, gesticulando, rindo. Principalmente quando Estela passava. Deixou de usar os vestidos chemisier. Conhecia aquele de pele morena, já com bastante idade que comprava comida no prédio onde vez ou outra Estela pegava seu almoço. Era o pior de todos. Tinha certeza que ele espalhava boatos maldosos a seu respeito. Evitava passar pelo ponto. Agora só pegava carros de praça quando não havia alternativa. Queixou-se para o pai e para o cunhado que também eram motoristas de táxi. Estes resolveram dar uma incerta no local e ver o que estava acontecendo. Tomariam providência, se Estela, veementemente não os proibisse de fazê-lo. Dizia que poderia ser pior. Tinha medo. Depois foram os carros. Muitos carros que buzinavam quando passavam em frente ao prédio onde Estela morava. Principalmente à noite ou pelo amanhecer quando tudo ainda estava em silêncio ouvia o roncar de carros que arrancavam bruscamente ou ainda uma buzina estridente justo na frente do seu prédio. Sobressaltava-se. Achava tudo uma provocação.
Um dia chegou apavorada na casa da irmã. Andavam sobrevoando de helicóptero o prédio onde morava. Aquilo já era demais, Estela não sabia mais onde se meter, estava em pânico. Eram uma máfia aqueles motoristas. Foi quando a irmã teve a certeza. Já estava desconfiada. Quando tentava falar sobre a veracidade dos fatos Estela ficava desesperada por sentir-se desacreditada. Não. Não estava louca. Tinha certeza. Dez anos tinham se passado desde que tudo começou. Olha Estela, aquele moreno do táxi já deve ter morrido, pois já era uma pessoa de idade. Isto não faz mais sentido. Alzira insinuava apenas uma terapia e bastava para que ela fechar-se em copas. Durante algum tempo não falava mais na situação, porém percebia-se que sofria. O tempo passava e o terror era cada vez maior, mas Estela silenciava. Deu graças a Deus quando se aposentou. Também não suportava mais as perseguições na Escola. Era uma dedicada e excelente professora. Em seu último dia de trabalho recebeu homenagens e presentes de colegas e alunos.
Agora havia os vizinhos. Falava baixinho dentro de casa. No apartamento ao lado ficavam sempre colados à parede ouvindo o que Estela fazia. Se ligasse o rádio ou a TV tinha sempre que ficar com o som muito, muito baixinho. Os vizinhos implicavam com isto. Não gostavam que Estela fizesse barulho. Entrou em pânico quando um dia sua barriga começou a fazer ruídos e gases escaparam sonoros. Pronto. Foi um comentário geral. Estela via que as pessoas do condomínio riam, falavam e a olhavam de soslaio. Novamente foi sugerido um psicólogo. Eram conversas dolorosas para Estela. Olha, se é verdadeiro ou não todos estes acontecimentos, isto não interessa. O que importa é o mal que tudo isto está te fazendo. Precisas de medicação pelo menos contra a depressão que tudo isto te causa. Visto por este prisma a irmã até tinha razão. Estela finalmente aceitou, estava deploravelmente exausta.

Quanto tempo de sofrimento. Morava sozinha desde os trinta anos. Não dera sorte no amor ou de alguma sorte fugira de todos os homens que dela se aproximaram? Estela fora uma menina bonita, uma adolescente graciosa, uma linda moça e aos quarenta e cinco anos uma bela mulher quando as perseguições começaram. Separada dos pais em tenra idade vivera desde os cinco anos na companhia de uma velha tia de seu pai. Pelos nove a mãe de Estela morrera enfartada em um manicômio. Aos quinze passou a viver com o pai e a madrasta até que aos trinta resolveu comprar seu próprio apartamento. Estela estava agora com sessenta anos. Passou a freqüentar um psiquiatra e já não falava mais tanto de motoristas e perseguições. Ou talvez apenas se calasse. Talvez até ela mesma duvidasse da veracidade dos fatos e isto a torturasse ainda mais.
Em compensação passou a cuidar freneticamente do seu corpo. Alimentava-se com ansiedade. Temia perder os rins como acontecera com a irmã mais nova. Tinha gastrite e prisão de ventre crônica. Parou de comer carne, usar sal, tomar café. Comia cada vez menos. Emagrecera. Outro dia ficou internada com arritmia. Passou a contar os batimentos cardíacos com freqüência e a perambular por consultórios médicos variados. Sua salvação era a ioga, ou sua fuga. Talvez sua criança interior tenha perdido a proteção em tenra idade e continuasse lá, trancada em um recôndito de sua alma, com medo do mundo, seguindo uma viagem por estradas internas que invariavelmente desembocavam umas nas outras. Estradas sem saída.

Parece que não existe evasão para Estela, uma janela, uma porta. Seu inconsciente teria vindo à tona submergindo-a. Agora uma declaração de amor aos sessenta anos fizera Estela sorrir. Colocou brincos, pintou as unhas de rosa bebê, deu um trato na pele e uma coloração diferente nos cabelos. Seria capaz de matar o minotauro que vivia dentro de si? Teria encontrado o fio de Ariadne que a conduziria para fora do labirinto da natureza humana em que se perdera?

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