Lembro dela com as cadernetas na mão, somando, diminuindo e cobrando. Naquele tempo, as compras eram anotadas em cadernetas, vendia-se fiado desde o feijão até as bananas. A maioria pagava. A palavra valia e o fio de bigode era a garantia. Não lembro da minha avó paterna sorrindo. Era sócia com o filho e um sobrinho em um armazém de secos e molhados. Mantinha a família toda na linha e unida. Corpulenta, cabelos puxados em coque, óculos, roupas escuras, fisionomia sempre séria. Chamavam-lhe Dona Marieta. Para uns uma fortaleza, para outros uma carola rabugenta. O fato é que viera do interior depois que enviuvara e por duas vezes o pequeno hotel que era o sustento da família pegara fogo. Foi quando resolveu instalar-se com os filhos em Porto Alegre. Estes, já casados permaneceram ao redor da mãe. Dona Marieta, os filhos, os netos – dominavam a rua. O armazém constituía-se também de uma serraria e uma revenda de bananas. Entregavam o rancho, o leite e as achas de lenha usadas para alimentar os fogões da época.
Dona Marieta era famosa. Logo na primeira hora arrumava-se e subia a rua com passos firmes em direção à igreja. Não perdia a missa das sete. Vez por outra os padres apareciam em sua casa. Às oito já estava no armazém. Aos pobres que chegassem bem cedo entregava os pães dormidos de graça, os que sobrassem do dia anterior. Uma espécie de caridade. Dava conselhos e também carraspanas aos que ali vinham fazer suas compras, se julgasse necessário. Seu João cuidado com a bebida, depois a família passa fome! Não poupava as sirigaitas que pintavam as unhas e não cobriam os braços até o cotovelo. Aos domingos levava os netos para a missa. Uns preferidos outros menos. Nenhum queria sentar-se ao lado da avó. Fugiam para a ponta do banco. Qualquer movimento que a desconcentrasse da missa, lá vinha um beliscão, daqueles bem torcidos. Era considerada uma pessoa forte, corajosa e boa. Eu, por conta dos beliscões queria mais era distancia da dona Marieta.
O que seria do mundo sem as Marietas-tronco-de-carvalho abrigando suas famílias? Dá para desconsiderar a rabujice e a carolice delas pq elas abriam mão de ter uma vida pessoal, muitas vezes sem se dar conta disso...E deixar de viver acaba sendo debitado na caderneta de quem vive mais perto... Adorei conhecer essa vó nas mãos dessa neta tão perspicaz! Bj, Vera
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