quarta-feira, 17 de março de 2010

Mapa Astral


Cheguei ao mundo capricornianamente.
Sabia que meu Leão seria acorrentado
pelo gigante Saturno e pelo destruidor Plutão,
na casa que não seria só minha.

Minha Lua faceira queria brincadeira
na casa das diversões. Diversificar
geminianamente amar e criar
junto com o imprevisível Urano.
E assim pelo coração ganhei minha filha
e me tornei mãe e professora de
filhos que não seriam só meus.

Mas, minha Lua ainda bateu de frente
com a senhora Vênus que
desafiadoramente me disse: Amar?
Não te darei esta liberdade.
Teu amor, estará a serviço das deusas
e estas são muito exigentes.
Sou hoje, filha de Yemanjá
Trabalhando pelos carentes.

Teu sexo seguirá a mesma exigência.
E se Urano desafia o deus Marte
muita brutalidade vem pela frente.
Não deu outra, cirurgia e acidente.
Melhor seguir os caminhos traçados
E sair pela tangente ...

“Faça, minha amiga, deste limão,
uma limonada, se é que te apraz”
foi o que me disseram os deuses.
“O livre arbítrio é pra’quele que é capaz.”

Minha Lua que é curiosa e sabida
fez um belo trato com Netuno
e deixou a fantasia rolar.
Por outro lado, meus pensamentos
fizeram incursões na casa da morte
em conjunção com deus Plutão,
regiamente, e deu nisto: escrever
sobre os submundos das almas
machucadas e feridas.

Júpiter desafiou-me lá de cima,
minando minha confiança, em compensação
fez com o Sr. do imprevisível um belo trato
e ganhei a permissão pra falar de astrologia,
e fugir da maldição pela escrita e pela poesia.

Sombras

Altar profanado
Sombra de asas
Abrigos
Leões ávidos
Quero acordar amora
Tramóia, insídias
Abismo da morte
Emudecido silêncio
Máscara de cera.

Cataventos de outrora

Regatos de pássaros, sílfides
Roubam o espírito das águas?
Lusco-fusco cinzento entre
O por-do-sol e a aurora
Sons de violinos sonolentos
Entoam cantilenas no giro
Dos cataventos de outrora.

Infâncias

Três rostos três infâncias
Rosa e azul no recanto
Cada uma no se canto
Em cada quina do retrato

Dois sorrisos e um siso
No papel amarelado
Três infantes e três vidas
Desde sempre abandonadas

No sorriso uma esperança
De um vestido azul rosado.

Espiral


Ponto de luz em espirais
sou vida ali parada
energia que refaz. Um pouco
assim dormente em ais
Desejo esquecer o rastro
esquivo, torto, sinuoso
do caminho solitário
doloroso. Voltar atrás.

Mergulho

Regata de cristal segredo,
Caminho de mergulho e mar
Espelho telhado da juventude
Calor em gotas de quietude
Córrego, corredeira, riacho
Percepções em ondas harmônicas
Em quimeras esticadas
No horizonte da vida

Rebelião

Bom era ser folha
No vento amarela
Ser doida varrida
Pelo vento que
A folha leva

Bom era ser pedra
que rola da sanga
na corrente do rio
lodo limo líquen
pedra de fio
e não estar nem aí
pra ninguém

Arrebol

Rosto de mar.
Secava galhos os olhos
Como roupa no varal.
Sonhos no poço do tempo,
Dependurados para ver
Empassarados de sol.
Arrebol

Filha princesa

Os anéis anis nácar
Da arca arcana, prensa
Ânsias de asas, apenas
Ápice, raia anseia
Nascer, do nada precisa.

Renasce do nada Acesa as ânsias
Criança princesa Anéis nácar
Risca, precisa Apenas asas.

Irmã

Para muito além
envolta em verde esperança
Nas costas, a bolsa
bagagem da vida
dores, secretos amores
sonhos de alcachofras cor de rosa
O que te espera?
Docerindo
indomável cavaleiro
quiça?

A gente deserto, aridez d`areia
Na feira da multidão
almofadas, quinquilharias
filhos, irmãs
os olhos pranteia

Amanhecer

Cheiro de árvores.
Coisas da terra?
Torpor animal
amanhecendo em delírios
engolindo auroras.
Olhada de azul
criança ave
voava fora da asa.

Sítio

“Uma bananeira de caturritas corta o azul de verde,
um sapo encharcado de pedra coaxa na direção do Sol,
trinados e piados rasgam o ar de passarinhos árvores, enquanto a espinhenta vermelhorosa desfolha seu perfume ao vento".

Carnaval

Pela rua, na noite de lua, descem feito loucos, sempre a cantar
Fogos de artifício, sangram luzes salamandras espoucam no ar
Dementes pegam carona em estrelas cadentes que ali vem brincar
E aquela gente tão sofrida de tanto contente se põe a dançar

Orvalho e alegria se espalhou e a madrugada fria se aqueceu
A multidão em paz finalmente redimida na calçada adormeceu
Pierrô e Colombina entre confete e serpentina fizeram amor
Cheios de ternura e graça não viram o tempo que ali passou
E o pobre Arlequim
Em sua dor sem fim
Chorou

A concha

A concha gulhopedra
Trança cestilho quebrado
Cristal crispado de mar
Malha maresia Espalha
cestos azul turqueza
O ninho? Talvez
A filha? Sei lá.

Lampiões do tempo

A casa esbaforida
Estampada de seda
Na embalagem florida.
O tope vermelho viria?

A caixa amontoava luz
Bolas verdes riam de alegria
Tão alto, o nheiropin
Acetinava os tempos
Dos lampiões lampados
E dos lenços de cetim.

Estampados de lembranças
Na parede pendurados
Retratos de outras andanças
Vestiam vestidos rosados.

Odara

Negro véu de renda
Mistério trançado
Nas tramas do destino?
Olhar dissimulado.

Embabadado de seda
Plissado de barra
Luva, sapato, vestido
Trança rubra oferenda.

Oblíqua, velada, enrustida
Atrás do leque m`encara
Quem sou? Quem és?
Feiticeira, cigana, traiçoeira
corpo e alma mulher odara

Docemel

Não tenho mais o tempo
Não tenho o docemel
nem tampouco a alegria
das paixões em carrossel
Pudor calmo, pacífico
Encobre amores de bordel

Vestido de baile


Velho vestido de baile, esquecido
entre porcelanas e castiçais.
O gato não tinha consciência?
Descobertos, renascidos, antigos
amores âncoras palpitantes

O gato só, velho como o serpe
Olhos amarelos, no canto
guardando encantos e prantos
E amuletos esquecidos.

Olhos e olhares

Olhos, olhadas, olhadelas
Uns em rodelas
Outros em amêndoas
Ferozes fitam-me de águia
Curiosos miram-me de lince

Mau olhado olho grande
Rebento de plantas. Olhos d`água
Prescrutam-me a alma? Olhos de lua
Não me deixam pregar o olho
Colocam-me no olho da rua

Olheiras, olhaduras
Olhos de sapo, profanos
Aguados de prata no fundo
Custam-me os olhos da cara
Os profundos olhos humanos.

Brinde

Taça vazia
seca esquecida
qual fruta caída
nos lençóis sem cor
Cálice cala-se
apaga-se
vida sem dor
Apenas lágrimas
Gotas que brindam
o deserto dos anos
novos enganos
não mais dor
Meia-Noite
tim-tim!

domingo, 7 de março de 2010

Rumo

Minha palavra revoa
mas não corre à toa
Tem destino certo
como o leito de um rio
Seu rumo é o horizonte
a liberdade da vazante
concha segura nas mãos
E não é por acaso
que leva o ocaso
no dorso do rio.

Égua baia

Égua baia tordilha
cruzando riachos de pedra
subindo morros de roças
Minha égua voando
ao sabor do vento quente
Meu corpo seu corpo suados
misturados na liberdade
galopando riso aberto
ao encontro de um destino
tão incerto

Autorretrato

O que vejo no espelho?
Vestígios da vida minha
restos do que já fui...

Retorno intacta
quando dele me afasto
A criança ainda persiste
atrás do espelho já gasto.

terça-feira, 2 de março de 2010

O vestido de Maria Rita

Maria Rita era fininha e delicada como uma taça de cristal. Suas pernas compridas renderam-lhe o apelido de saracura do banhado. Tinha lá seus 10 anos e vivia entre a casa da tia, onde fazia as refeições e o quarto onde dormia junto ao pai, depois que sua mãe enlouquecera e a família a colocara no hospício. A menina fora para a colônia, passar férias na roça. Estava lá despreocupada quando chegou um carro. Era um carro de praça? Levaram Maria Rita para a cidade às pressas. Pressentindo algo de ruim enjoou. Tiveram que parar o carro para Maria Rita vomitar. Dito e feito. De longe avistou a tampa do caixão encostada à porta da casa e no caminho muita gente que a olhava com um misto de compaixão e estranheza. Era verdade. Sua mãe morrera. Quer dar um beijo na mamãe? Não. Por quê? Não adianta mesmo. Vestiram-lhe o seu único vestido tingido de preto! Nunca tinha ganho um vestido como aquele. Saia cigana. Branco com raminhos de flores miudinhas, babados superpostos. Vestido rodado, como o chamava, feito pela tia Lúcia, que era também costureira. Lembrava do dia em que escolhera o modelo na revista das modas. É este aqui, tia, este aqui que eu quero. E agora aquilo. Mamãe morrera e o vestido ficara preto.