sábado, 30 de janeiro de 2010

Folhas de outono

Acolchoado macio de folhas
Amarelam tapetes de outono.
Casca de árvores, carícias?
Limiar de pausas e escolhas?

Cercas de jardins, ruínas,
Resinas doces de azinheiras.
Horizontes de navios e barcos
Arcos de tempos sem fronteiras.

Água e musgo

Sou água e musgo
Enverdecendo as paredes dos muros.
Ramos de lua e raízes de sabiás
Pingam poesia na correnteza do rio.
Corre entre as pedras
A loucura das palavras
Entrecortadas de luz.

Janela da alma

A poesia é uma janela
que nem sempre se abre.
Quer-se espiar para fora
E parece trancada à chave.

A poesia é uma janela
Entre a alma e o mundo lá fora
Mas nem sempre se abre
Quando precisamos dela.
Fica lá, fechada
De repente uma lufada
E a poesia sai por ela.

A fita

A fita me fita
Se embrenha se infiltra
Se enrosca e enredilha
No meio de tantas outras.

No monte das linhas
Cordões e barbantes
Trancelins da vida minha
Por que me fitas ó fita?

Só fazes fita e gritas
Pra me pegar de surpresa
Vestindo lembranças
De tantas desditas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um lugar preferido

Tinha um porão. Lembro que tinha um porão. Toda casa de imigrantes que se prezasse tinha um porão e lá aconteciam a feitura da liguiça assim como do vinho caaseiro dentro de enormes pipas. A casa era em L. Numa ponta a despensa e o lavador de louça feito de madeira. A água escorria diretamente para a horta. A cozinha grande com um fogão a lenha sempre aceso e uma mesa comprida onde tomava-se o café da manhã e fazia-se a ceia: polenta, toucinho e liguiça fritos, ovos e radiche com muito vinagre de vinho. Antes da cozinha uma sala com outra mesa comprida onde recebia-se as visitas e fazia-se a refeição do meio-dia. Logo em seguida a casa dobrava e lá ficavam vários quartos. O último, pequeno, no final do corredor, o quarto de hóspedes, era o meu. Quando em férias escolares eu era mandada para as colônias. Para engordar, como dizia meu pai. Mas, voltando ao meu quarto ele era assim: uma cama grande, de casal, com colchão feito de palhas de milho. Quando a gente levantava pela manhã e estendia a cama, colocava-se as mãos em duas fendas do forro e afofava-se a palha. Completava a mobília um baú enorme, de madeira. Ali dentro eram guardados colchas, cobertores, toalhas com muita naftalina e alfazema. Em cima do baú ficava a minha mala. Algumas poucas roupas e utensílios necessários.
Mas, o que eu mais gostava mesmo, era das duas janelas. Uma ficava à direita da cama e a outra, em frente. Pela da direita, o vidro espelhava a cozinha e a sala e na frente havia sempre uma paisagem inesquecível. Em noite de lua cheia, um disco luminoso clareava tudo. Durante o dia avistava-se ao longe um morro verdinho com um pinheiro na ponta. Quando cansava das leituras, sim, porque os livros eram a minha melhor companhia, eu descansava os olhos no alto do pinheiro. Muitas horas passava ali, recostada nos travesseiros de palha, lendo e escrevendo histórias. Vivi em muitas casas durante a minha vida, mas em nenhuma tive um lugar tão meu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A casa tomada

Foi quando a levaram depois de tantas idas e vindas, definitivamente, para o hospício. Por que para o hospício? Porque as clínicas particulares eram caras. Não dá mais para pagar, falava o pai. A Tita ficou com a avó, a Lili, tão bonitinha, foi escolhida pela tia Carmela, e Maria ficou por ali, feito cão sem lugar. Dormia e fazia as refeições na pensão do tio Ângelo, junto com seu pai. Naquele primeiro dia foi estranho. Depois do almoço quis voltar pra casa. Foi até lá, ficava perto. A porta entreaberta. Faltavam algumas coisas. Onde estava a máquina de costura da mãe? Todos os dias faltavam coisas, todos os dias retornava para olhar a casa... Seu pai não respondia às perguntas angustiadas. Um dia desses eles estavam lá. Pessoas estranhas estavam morando lá? Ficou perambulando no entorno. Depois, correu para avisar o pai. Ele já sabia. Sua mãe não voltaria? Maria conheceu a sensação de ter sido tomada, sua casa, sua vida.