sábado, 12 de junho de 2010

A corda

acorda
que
a
corda
esticada
tensa
rebenta
benta
estraçalha
a malha
da
corda
do
coração
a
corda

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A cabeça

Ela estava sobre a mesa da oficina. Uma cabeça de gesso, oca, com uma abertura no crânio. Branca, apenas com filetes dourados que adornavam o entorno como uma touca. Seria simplesmente uma cabeça de gesso, não fosse o rosto simétrico e a expressão da face. A boca bem contornada, carnuda, o nariz pequeno, os olhos em forma de amêndoa e sem pupilas, mas mesmo assim expressivos. Volta e meia surgiam na minha lembrança, depois que deixamos os trabalhos da oficina literária. À noite, antes de dormir sua imagem se instalou na minha mente. Agora, já não era simplesmente uma cabeça. Tinha corpo e membros, vestia uma túnica azul, longa, com os mesmos arabescos dourados que a adornavam. A touca era agora um cone, de cuja ponta saíam fitas de muitas cores misturadas a um longo cabelo negro. Não restava dúvida. Aquela criatura vinha de algum lugar distante. Ficamos nos olhando, de longe, em silêncio. Eu a examinava com curiosidade. Ela deixava-se examinar. Aproximou-se. Sou da terra dos faraós. Tenho milhares de anos e de há muito cuido dos papiros e dos escritos, muito antes de tudo ter sido destruído pela ignorância e barbarismo do homem. Apesar de terem sido queimados eles existem, em outro plano, na memória da humanidade. Entregou-me um rolo cheio de caracteres para mim desconhecidos e em seguida foi esmaecendo até desaparecer, deixando apenas uma névoa em seu lugar. Acordei sentindo aquela presença e o impulso normal que me leva a rabiscar papéis.

sábado, 29 de maio de 2010

Grilhões

Grilhões atados aos pés.
Asas de garças querendo
Levantar o vôo branco
Sobre mar de amargura

Borboleta negra
Pousada no
Coração de manteiga?

A dor verde escorre
Musgo e líquen
na face de folhas

Lancinante e aguda
nasce uma flor
na minha cabeça.
Despetalo e desmaio

Pitangas rubras

Impulsos de pedras polidas.
Lianas de saudades?
Descaminhos no labirinto de espelhos
Deslumbra labaredas de suspiros.
Vergonhas inconseqüentes de pitangas
Rubras, doces, escoando de azuis.
Vozes e cantigas coloridas, mudas,
Que o giro dos sonhos traduz.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Porões

Outro dia fiz uma visita. Conheci o local de trabalho de artesãos aprendizes. Fui descendo escadas um... dois... três... degraus... mais alguns... mais pra baixo... o cheiro do barro seco, da argila molhada entrando nas minhas narinas. Respiro um ar úmido. Ao redor peças esculpidas... uma moranga, um rosto, uma concha. No fundo uma saída para um pátio com árvores antigas, folhagens e um banco de jardim. De repente não estou mais ali. O porão é outro, muito antigo. Uma casa sobre ele. Subo as escadas e reconheço a casa da vó de fora. Assim nós a chamávamos para diferenciar da nossa avó Marieta que vizinhava conosco em Porto Alegre. A casa no bom estilo italiano ficava nos arredores de Barbosa, quer dizer, município de Carlos Barbosa. Ficava no alto, encravada em terreno irregular. Na frente uma sala ocupava toda a largura. A porta principal dava para o avarandado e enfim para o jardim. O terreno continuava acidentado de modo que depois do jardim subia-se uma ladeira e chegava-se então aos trilhos do trem. Sim, o trem passava por ali, dividindo ao meio as terras do meu avô. O trem passava todos os dias pela manhã e à noite. Para mim era uma festa. Ouvia-se o apito estridente da locomotiva e corriam todos para ver o trem. Abanávamos para passageiros desconhecidos que vez por outra retribuíam os acenos. Claro que isto acontecia quando as netas da cidade estavam lá, porque de resto o acontecimento era ordinário e ninguém se preocupava com ele. Um corredor, com quartos de ambos os lados, uma peça ampla com mesa comprida para refeições, cozinha separada e o porão. Ah! O misterioso porão. Não nos permitiam muito ir ao porão. No meio da noite ouvíamos muitos sons vindos de lá. Alguma coisa caía estrepitosamente. São os ratos! Mas tem rato no porão? Outras vezes tínhamos a nítida impressão de passos. Raposas! Raposas? Aquele porão da minha infância permaneceu para sempre nos meus porões, cheio de mistérios nunca muito bem esclarecidos. Retorno... Olho ao redor e aprecio os objetos de arte expostos nas bancadas. Todos me parecem misteriosos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fogo-fátuo

Eu canto a vida da Terra
passeios de saibro, groselheiras
o que é ser uma pessoa?
vida que foge por todos os cantos
rochedo, fogo-fátuo, clareira
entre sonho e fantasia
a realidade
Um dia terei desaparecido

domingo, 9 de maio de 2010

Os pretos e os brancos

No princípio era a Cor... o Caos coloria-se em uma exuberância de diferentes tons e nuances, emaranhando-se em um novelo até o momento em que as Cores começaram a separar-se, definir-se e fazer suas próprias criações. Alguns tons formaram uma imensa bola marrom que se transformou no atual conhecido planeta Terra. O verde e suas nuances cobriram então o solo do planeta. Ainda meio misturado com o azul formou os oceanos e todas as águas. Porém fora daquela imensa bola e ao seu redor a supremacia foi toda do azul. Um pouco mais claro aqui mais escuro acolá e surgia o Céu. O amarelo criou estrelas brilhantes que flutuaram na imensidão. Amarelou tanto que ficou dourado e então surgiu o Sol, a estrela que aqueceu e vivificou tudo com seus raios de luz. Sim, porque o amarelo foi quem deu a luz. Vermelhos, encarnados, escarlates e violáceos tingiram a aurora no instante em que o Sol surgia no horizonte da Terra. Houve um momento em que as Cores separaram-se e alinharam-se no Céu logo depois da chuva, para logo em seguida esmaecer e aos poucos retornar aos seus próprios lugares. Era o arco-íris, ainda como o conhecemos hoje. E, como que para celebrar a harmonia, cada uma das cores, tons e nuances teceram as flores. Quiseram então superar-se nas mais diversas e inusitadas formas coloridas que alegram a vida e a morte no planeta. Quando resolveram criar formas livres surgiram os animais, mas já um tanto cansadas esmeraram-se mais nas formas do que no colorido. São muitas as formas animais que habitam a Terra. A última criação das Cores foram os seres humanos. E por estarem assim, meio que entediadas, criaram o homem e a mulher de tamanhos e formas variáveis dentro de um mesmo padrão, porém sem cores: Uns brancos outros pretos, um pouco mais, um pouco menos, uns pardos, outros tendendo para o amarelo, nada muito significativo. Nenhum melhor que o outro, nem mais exuberante.