terça-feira, 17 de agosto de 2010

Meu algoz

Aprendi a rir sozinha
a falar sozinha
a ouvir o silêncio
a escutar a minha voz
Meu algoz
assim me conservas
de castigo
por eu estar contigo
Uma forma de morte?

Mandala

Olho circular
pupila da mandala
Engrenagens da roda
presente passado
futuro, claro escuro
dia e noite arco íris
Circunferências da vida.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Preto-Velho

Um dia Preto Velho chorou
nos braços a criança
dor tão profunda
rasgou meu peito
lágrimas correram
coração sangrou
O destino?
Por quê?

Ah Preto Velho
não me disseste nada
fiquei assim
sem entender
a razão d’aquele triste chorar

Passados tantos anos
chorando um choro dorido
o coração sangrando
lembrei do teu choro sofrido
e entendi a razão

Aquele choro choraria
muitas vezes
vida afora
Como agora

Chuva da noite

Vasos velhos meio tortos
pendendo gerânios vermelhos
sob a chuva que tamborila
No telhado e no gramado
estrelas d’água pingadas
no breu da noite
a chuva chia silêncio

Partindo

A mulher de costas
caminha em direção ao deserto
Céu infinito de azul.
Partindo leva a bagagem da vida
na grande bolsa marrom
para muito além
Eu, nós, sós
Como a ilha.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lembranças

Descendo morros de roças
Encantos de fins de tarde
Sob parreirais estendidos
chapéu palha abas largas
Ondina, Inês e eu
Montadas em mula chucra
Entre cantos e risadas
Ainda ecoam nos meus sonhos
Bem depois das despedidas
Adolescências cruzadas
perdidas durante a jornada

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os porões de Ana Rosa

Tantas coisas havia nos porões de Ana Rosa, principalmente ratos. Dia desses, quando deu por si havia descido seus degraus e os encontrou. Eram ninhadas de camundongos. Uma sonora gargalhada fez doer sua cabeça. Lá estava seu Antero no velho armazém que Ana Rosa percorria agora. O balcão em L parecia-lhe tão alto naqueles tempos. Na verdade era mais alto apenas que seus nove anos. Os fregueses entravam por duas portas frontais. Em duas ou três pequenas mesas servia-se cachaça e ali corria sempre uma boa prosa entre os freqüentadores do ócio. Nestas horas costumavam correr com as crianças dali. A prosa tornava-se proibida. Onde o balcão dobrava em L era o lugar das bananas. Durante algum tempo comentava-se muito sobre a balconista, porque ela ajudava o dono da madeireira a escolher as bananas por detrás do balcão. Riam-se disso com um prazer malvado. Ana Rosa vislumbrou as prateleiras de balas, pirulitos, mariolas e amor-carioca. Lembrou da primeira vez que comeu um bombom. Derretia na boca. Uma única vez. Nos fundos do armazém ficava a serraria. Ali no meio da serragem um cão sarnento vivia amarrado. Era onde também brincavam as crianças da família e da vizinhança. Volta e meia pegavam sarna. Ao lado do armazém era a garagem. Uma espécie de sótão sobre ela guardava trastes, os ratos faziam seus ninhos e os gatos pariam. Volta e meia descobriam uma ninhada. Lindos, rosados e asquerosos ao mesmo tempo. Gatos também nasciam demais, porque gato vagabundo era o que não faltava a rondar por ali. Era quando acontecia aquilo, que até hoje permanecia em seu porão de lembranças. Seu Antero divertia-se a afogar gatos e ratos, quando não os jogava contra uma parede. Tinha-lhes horror, porque se infiltravam no armazém, nas casas e em todo o lugar a procura de comida. Rebentava-lhes o crânio às gargalhadas. Um prazer mórbido. Apesar disto, era muito devoto. Ia à missa aos domingos, freqüentava novenas, trezenas, comungava, auxiliava o padre, a paróquia, rezava o terço ajoelhado diante da Virgem todas as noites e era Filho de Maria. Era difícil para Ana Rosa justificar a morte brutal dos camundongos e dos gatos. Como Deus entendia aquilo? Mas, parecia que se dava bem com Deus.
Até que, depois do segundo filho homem do Seu Antero, nasceu uma filha mulher. Viveu apenas algumas semanas e sua morte foi um mistério. Ninguém entendia a razão, nenhum médico conseguiu diagnosticar a doença. Diziam que o problema era na cabeça. Nasceu o terceiro filho homem sadio e a segunda menina veio logo depois. Novo corre-corre, a criança ficou doente. Perderam a segunda menina e o problema parecia ser o mesmo. Ninguém explicava, nem os médicos sabiam ao certo. A vizinhança já falava no episódio dos ratos e dos gatos que eram mortos de forma brutal. Morriam ao bater com a cabeça. Mudaram-se dali para uma casa melhor. Os negócios iam bem. Seu Antero vendeu sua parte no armazém, os meninos estavam grandes e novamente outra gravidez. Tinham três meninos e loucura para ter uma filha. Esta se chamaria Maria. Nasceu Maria da Conceição como promessa para vingar. Uma semana, duas, três e a esperança aumentava. Uma manhã recusou o alimento. Limpavam-lhe a baba que começava a escorrer. Entra e sai de médicos. Os melhores. Desenganaram. Aquele dia que ela foi pro céu seu Antero e a mulher de hora em hora ouviam-lhe a respiração e o desespero saia pelas janelas. Havia parentes na casa. Choravam muito. Não faltou quem falasse à boca pequena no episódio dos ratos e dos gatos. Morriam com suas cabecinhas esmagadas contra a parede. Ana Rosa ao retornar dos seus porões ainda pode ouvir algo semelhante a um choro. Ou seria miado? Ou guinchos de ratos? Lembrou que faltava pão em casa. Foi até a padaria da esquina. Seu Joaquim estava lá a reclamar dos gatos e dos ratos que infestavam aquele bairro de São Paulo.