sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os porões de Ana Rosa

Tantas coisas havia nos porões de Ana Rosa, principalmente ratos. Dia desses, quando deu por si havia descido seus degraus e os encontrou. Eram ninhadas de camundongos. Uma sonora gargalhada fez doer sua cabeça. Lá estava seu Antero no velho armazém que Ana Rosa percorria agora. O balcão em L parecia-lhe tão alto naqueles tempos. Na verdade era mais alto apenas que seus nove anos. Os fregueses entravam por duas portas frontais. Em duas ou três pequenas mesas servia-se cachaça e ali corria sempre uma boa prosa entre os freqüentadores do ócio. Nestas horas costumavam correr com as crianças dali. A prosa tornava-se proibida. Onde o balcão dobrava em L era o lugar das bananas. Durante algum tempo comentava-se muito sobre a balconista, porque ela ajudava o dono da madeireira a escolher as bananas por detrás do balcão. Riam-se disso com um prazer malvado. Ana Rosa vislumbrou as prateleiras de balas, pirulitos, mariolas e amor-carioca. Lembrou da primeira vez que comeu um bombom. Derretia na boca. Uma única vez. Nos fundos do armazém ficava a serraria. Ali no meio da serragem um cão sarnento vivia amarrado. Era onde também brincavam as crianças da família e da vizinhança. Volta e meia pegavam sarna. Ao lado do armazém era a garagem. Uma espécie de sótão sobre ela guardava trastes, os ratos faziam seus ninhos e os gatos pariam. Volta e meia descobriam uma ninhada. Lindos, rosados e asquerosos ao mesmo tempo. Gatos também nasciam demais, porque gato vagabundo era o que não faltava a rondar por ali. Era quando acontecia aquilo, que até hoje permanecia em seu porão de lembranças. Seu Antero divertia-se a afogar gatos e ratos, quando não os jogava contra uma parede. Tinha-lhes horror, porque se infiltravam no armazém, nas casas e em todo o lugar a procura de comida. Rebentava-lhes o crânio às gargalhadas. Um prazer mórbido. Apesar disto, era muito devoto. Ia à missa aos domingos, freqüentava novenas, trezenas, comungava, auxiliava o padre, a paróquia, rezava o terço ajoelhado diante da Virgem todas as noites e era Filho de Maria. Era difícil para Ana Rosa justificar a morte brutal dos camundongos e dos gatos. Como Deus entendia aquilo? Mas, parecia que se dava bem com Deus.
Até que, depois do segundo filho homem do Seu Antero, nasceu uma filha mulher. Viveu apenas algumas semanas e sua morte foi um mistério. Ninguém entendia a razão, nenhum médico conseguiu diagnosticar a doença. Diziam que o problema era na cabeça. Nasceu o terceiro filho homem sadio e a segunda menina veio logo depois. Novo corre-corre, a criança ficou doente. Perderam a segunda menina e o problema parecia ser o mesmo. Ninguém explicava, nem os médicos sabiam ao certo. A vizinhança já falava no episódio dos ratos e dos gatos que eram mortos de forma brutal. Morriam ao bater com a cabeça. Mudaram-se dali para uma casa melhor. Os negócios iam bem. Seu Antero vendeu sua parte no armazém, os meninos estavam grandes e novamente outra gravidez. Tinham três meninos e loucura para ter uma filha. Esta se chamaria Maria. Nasceu Maria da Conceição como promessa para vingar. Uma semana, duas, três e a esperança aumentava. Uma manhã recusou o alimento. Limpavam-lhe a baba que começava a escorrer. Entra e sai de médicos. Os melhores. Desenganaram. Aquele dia que ela foi pro céu seu Antero e a mulher de hora em hora ouviam-lhe a respiração e o desespero saia pelas janelas. Havia parentes na casa. Choravam muito. Não faltou quem falasse à boca pequena no episódio dos ratos e dos gatos. Morriam com suas cabecinhas esmagadas contra a parede. Ana Rosa ao retornar dos seus porões ainda pode ouvir algo semelhante a um choro. Ou seria miado? Ou guinchos de ratos? Lembrou que faltava pão em casa. Foi até a padaria da esquina. Seu Joaquim estava lá a reclamar dos gatos e dos ratos que infestavam aquele bairro de São Paulo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Anoitecendo

Tecendo tecido em teia
cai a tarde em violeta
No tecido azul escuro
pequenos furos brilhantes
rasgam a abóboda celeste

Pontos de luz pirilampo
tramam a tela da noite
Tessitura de grilos cantantes
um primeiro outro depois
depois outro em sinfonia
harmonia que anoitece

sábado, 12 de junho de 2010

A corda

acorda
que
a
corda
esticada
tensa
rebenta
benta
estraçalha
a malha
da
corda
do
coração
a
corda

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A cabeça

Ela estava sobre a mesa da oficina. Uma cabeça de gesso, oca, com uma abertura no crânio. Branca, apenas com filetes dourados que adornavam o entorno como uma touca. Seria simplesmente uma cabeça de gesso, não fosse o rosto simétrico e a expressão da face. A boca bem contornada, carnuda, o nariz pequeno, os olhos em forma de amêndoa e sem pupilas, mas mesmo assim expressivos. Volta e meia surgiam na minha lembrança, depois que deixamos os trabalhos da oficina literária. À noite, antes de dormir sua imagem se instalou na minha mente. Agora, já não era simplesmente uma cabeça. Tinha corpo e membros, vestia uma túnica azul, longa, com os mesmos arabescos dourados que a adornavam. A touca era agora um cone, de cuja ponta saíam fitas de muitas cores misturadas a um longo cabelo negro. Não restava dúvida. Aquela criatura vinha de algum lugar distante. Ficamos nos olhando, de longe, em silêncio. Eu a examinava com curiosidade. Ela deixava-se examinar. Aproximou-se. Sou da terra dos faraós. Tenho milhares de anos e de há muito cuido dos papiros e dos escritos, muito antes de tudo ter sido destruído pela ignorância e barbarismo do homem. Apesar de terem sido queimados eles existem, em outro plano, na memória da humanidade. Entregou-me um rolo cheio de caracteres para mim desconhecidos e em seguida foi esmaecendo até desaparecer, deixando apenas uma névoa em seu lugar. Acordei sentindo aquela presença e o impulso normal que me leva a rabiscar papéis.

sábado, 29 de maio de 2010

Grilhões

Grilhões atados aos pés.
Asas de garças querendo
Levantar o vôo branco
Sobre mar de amargura

Borboleta negra
Pousada no
Coração de manteiga?

A dor verde escorre
Musgo e líquen
na face de folhas

Lancinante e aguda
nasce uma flor
na minha cabeça.
Despetalo e desmaio

Pitangas rubras

Impulsos de pedras polidas.
Lianas de saudades?
Descaminhos no labirinto de espelhos
Deslumbra labaredas de suspiros.
Vergonhas inconseqüentes de pitangas
Rubras, doces, escoando de azuis.
Vozes e cantigas coloridas, mudas,
Que o giro dos sonhos traduz.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Porões

Outro dia fiz uma visita. Conheci o local de trabalho de artesãos aprendizes. Fui descendo escadas um... dois... três... degraus... mais alguns... mais pra baixo... o cheiro do barro seco, da argila molhada entrando nas minhas narinas. Respiro um ar úmido. Ao redor peças esculpidas... uma moranga, um rosto, uma concha. No fundo uma saída para um pátio com árvores antigas, folhagens e um banco de jardim. De repente não estou mais ali. O porão é outro, muito antigo. Uma casa sobre ele. Subo as escadas e reconheço a casa da vó de fora. Assim nós a chamávamos para diferenciar da nossa avó Marieta que vizinhava conosco em Porto Alegre. A casa no bom estilo italiano ficava nos arredores de Barbosa, quer dizer, município de Carlos Barbosa. Ficava no alto, encravada em terreno irregular. Na frente uma sala ocupava toda a largura. A porta principal dava para o avarandado e enfim para o jardim. O terreno continuava acidentado de modo que depois do jardim subia-se uma ladeira e chegava-se então aos trilhos do trem. Sim, o trem passava por ali, dividindo ao meio as terras do meu avô. O trem passava todos os dias pela manhã e à noite. Para mim era uma festa. Ouvia-se o apito estridente da locomotiva e corriam todos para ver o trem. Abanávamos para passageiros desconhecidos que vez por outra retribuíam os acenos. Claro que isto acontecia quando as netas da cidade estavam lá, porque de resto o acontecimento era ordinário e ninguém se preocupava com ele. Um corredor, com quartos de ambos os lados, uma peça ampla com mesa comprida para refeições, cozinha separada e o porão. Ah! O misterioso porão. Não nos permitiam muito ir ao porão. No meio da noite ouvíamos muitos sons vindos de lá. Alguma coisa caía estrepitosamente. São os ratos! Mas tem rato no porão? Outras vezes tínhamos a nítida impressão de passos. Raposas! Raposas? Aquele porão da minha infância permaneceu para sempre nos meus porões, cheio de mistérios nunca muito bem esclarecidos. Retorno... Olho ao redor e aprecio os objetos de arte expostos nas bancadas. Todos me parecem misteriosos.