acorda
que
a
corda
esticada
tensa
rebenta
benta
estraçalha
a malha
da
corda
do
coração
a
corda
"A Arte precisa ou de solidão, ou da miséria, ou da paixão. É uma flor de rocha que exige um vento áspero e rude." (Alexandre Dumas Filho)
sábado, 12 de junho de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
A cabeça
Ela estava sobre a mesa da oficina. Uma cabeça de gesso, oca, com uma abertura no crânio. Branca, apenas com filetes dourados que adornavam o entorno como uma touca. Seria simplesmente uma cabeça de gesso, não fosse o rosto simétrico e a expressão da face. A boca bem contornada, carnuda, o nariz pequeno, os olhos em forma de amêndoa e sem pupilas, mas mesmo assim expressivos. Volta e meia surgiam na minha lembrança, depois que deixamos os trabalhos da oficina literária. À noite, antes de dormir sua imagem se instalou na minha mente. Agora, já não era simplesmente uma cabeça. Tinha corpo e membros, vestia uma túnica azul, longa, com os mesmos arabescos dourados que a adornavam. A touca era agora um cone, de cuja ponta saíam fitas de muitas cores misturadas a um longo cabelo negro. Não restava dúvida. Aquela criatura vinha de algum lugar distante. Ficamos nos olhando, de longe, em silêncio. Eu a examinava com curiosidade. Ela deixava-se examinar. Aproximou-se. Sou da terra dos faraós. Tenho milhares de anos e de há muito cuido dos papiros e dos escritos, muito antes de tudo ter sido destruído pela ignorância e barbarismo do homem. Apesar de terem sido queimados eles existem, em outro plano, na memória da humanidade. Entregou-me um rolo cheio de caracteres para mim desconhecidos e em seguida foi esmaecendo até desaparecer, deixando apenas uma névoa em seu lugar. Acordei sentindo aquela presença e o impulso normal que me leva a rabiscar papéis.
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